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O aumento do custo para importar veículos e peças tarifadas vindos do México e do Canadá ameaça a sobrevivência de vários modelos acessíveis no mercado norte-americano.

Relatos não verificados teriam alertado conselheiros econômicos da administração de que, sem uma revisão do acordo comercial que reduza de forma expressiva essas tarifas, fabricantes estrangeiros podem não conseguir oferecer carros baratos aos consumidores dos Estados Unidos.

A questão ganha urgência porque o acordo trilateral USMCA está em revisão, com prazo de renovação até 1º de julho. Após a posse em 2025, o presidente reintroduziu uma tarifa de 25% sob o argumento de "segurança nacional" contra os dois vizinhos, elevando custos de importação. Mesmo modelos cuja montagem final ocorra em solo americano correm risco de sair de linha se as peças importadas continuarem oneradas.

O cenário do mercado norte-americano já é sintomático: há apenas quatro modelos à venda por menos de US$ 25.000, e três deles podem ser eliminados até o fim do ano. A Nissan decidiu descontinuar o Versa; o Kia Soul também está sendo retirado; a Hyundai desenvolve a segunda geração do Venue, mas ainda não confirmou sua comercialização nos EUA.

A perda de veículos baratos não é um fenômeno isolado. Na última década, observaram-se aposentadorias de dezenas de modelos de entrada, em parte pela pressão dos custos. Em 2008 ainda era possível encontrar um Nissan básico por menos de US$ 10.000; hoje esse valor, na prática, raramente compra um carro novo e muitas vezes só alcança um crossover usado com alta quilometragem.

O impacto social é concreto: sem opções novas e econômicas com garantia e peças novas, parcelas vulneráveis da população ficam forçadas ao mercado de usados. Veículos com histórico e manutenção incertos elevam despesas ao longo do tempo, e uma pane simples pode comprometer a renda de quem depende do automóvel para trabalhar.

Além do efeito direto sobre preços e oferta, a política tarifária tensiona relações econômicas com dois dos maiores parceiros comerciais da região. Cerca de 45% dos carros vendidos nos EUA são importados, e aproximadamente metade dos componentes empregados em veículos produzidos no país vem do Canadá ou do México. A combinação de tarifas e custos crescentes contribui para um cenário de preços elevados e sentimento do consumidor em baixa.

Como alternativa paliativa, o Canadá vem abrindo espaço, em escala limitada, para marcas chinesas, numa tentativa de reduzir o custo dos veículos importados e ampliar opções abaixo de US$ 20.000. Ainda é cedo para avaliar se essa medida amenizará a crise, mas, na prática, a renovação do pacto trilateral e a reversão das tarifas sobre peças e carros importados parecem ser o mínimo necessário para preservar mesmo um punhado de carros novos e acessíveis no mercado norte-americano.