A escalada nos custos de importação de veículos e peças tarifadas vindas do Canadá e do México ameaça a continuidade de vários modelos econômicos no mercado dos Estados Unidos. A revisão do acordo comercial entre os três países aparece como ponto central para reverter esse quadro.
Conselheiros econômicos da administração foram alertados de que, caso uma renovação do USMCA não reduza de forma significativa as taxas sobre veículos e componentes, fabricantes estrangeiros poderão perder a condição de fabricar e vender carros baratos para os consumidores dos Estados Unidos. Até modelos com montagem final em solo americano podem sofrer corte se o preço das peças importadas não cair.
O presidente, que na assinatura do acordo em 2020 chegou a exaltá-lo como um marco, adotou depois uma tarifa de 25% em nome de segurança nacional contra os parceiros do Norte. O USMCA está em revisão, com prazo de renovação até 1º de julho, e a indústria automotiva tem feito apelos por uma postura favorável ao comércio intraamericano.
O reflexo imediato na oferta já é visível: hoje haveria somente quatro carros disponíveis por menos de US$ 25.000, e três desses modelos correm risco de sair de linha ainda neste ano. Entre as baixas anunciadas estão o fim do Versa pela Nissan e do Soul pela Kia; a Hyundai prepara uma nova geração do Venue, mas ainda não decidiu sua presença no mercado estadunidense.
Na última década dezenas de veículos econômicos desapareceram diante do aumento de custos, e a tendência não indica arrefecimento. Recuperar condições de comércio que reduzam tarifas sobre produtos mexicanos e canadenses aparece como o mínimo necessário para preservar ao menos parte dessa oferta acessível.
O impacto social é direto: sem carros novos baratos com peças novas e garantias, trabalhadores de menor renda ficam obrigados a buscar usados inflacionados, muitas vezes com quilometragens elevadas e manutenção incerta. Em épocas anteriores era possível achar sedãs por menos de US$ 10.000; hoje esse valor mal compra um crossover com 100.000 milhas rodadas.
Além do efeito sobre consumidores, a cadeia produtiva norte-americana é bastante integrada: cerca de 45% dos carros vendidos nos Estados Unidos são importados, e aproximadamente metade dos componentes dos veículos fabricados ali vem do Canadá ou do México. As tarifas elevaram custos e ajudaram a empurrar pressões inflacionárias que abalam a confiança do consumidor.
Como resposta às pressões de mercado, o Canadá abriu espaço para que marcas chinesas comecem a operar em vendas limitadas, buscando aliviar parte do peso dos preços. Resta ver se essas medidas pontuais serão suficientes para mitigar uma erosão mais profunda do segmento de carros acessíveis.