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Uma marca de luxo vem liderando há mais de uma década o ranking das fabricantes com menos recalls, e ainda registra menos chamados que Toyota e Lexus. Esse desempenho consistente chama atenção num mercado em que a confiabilidade figura cada vez mais entre as prioridades de compra.

Um relatório de 2024 mostrou que 41% dos compradores nos Estados Unidos passaram a considerar a confiabilidade como fator decisivo na escolha do carro, ante 35% em 2022; preço sugerido e custo de uso seguem na sequência. A crescente demanda por veículos mais confiáveis levanta até uma provocação: um carro pode ser considerado confiável se recebe mais recalls do que trocas de óleo?

Levantamentos recentes colocam nove modelos dessa fabricante de luxo entre os menos lembrados por chamadas de fábrica, com três deles — CLA, GLA e GLC — figurando no top 10 de um conjunto de 33 veículos com menor índice de recalls. Toyota e Lexus aparecem próximas no ranking, mas ainda assim com número maior de chamados quando comparadas à líder.

Para complicar a análise, um reconhecido ranking de confiabilidade posicionou essa marca na 19ª colocação, atrás de Chevrolet, Volkswagen, Mazda e Audi. Em 2026, outro levantamento de confiabilidade indicou que a Toyota superou a Subaru como a marca mais confiável; curiosamente, o Subaru Ascent constou entre os 25 modelos mais recallados, assim como o Volkswagen Atlas e o Atlas Cross Sport.

Isso ilustra que confiabilidade e frequência de recalls são medidas diferentes: mais chamados de fábrica não equivalem necessariamente a menor durabilidade, mas refletem uma maior taxa de intervenções oficiais ao longo da vida útil do produto — algo que proprietários podem esperar em média em certas marcas.

No outro extremo, a lista dos mais recallados veio dominada por fabricantes e modelos distintos: a Tesla aparece com seus quatro modelos principais entre os cinco veículos com mais chamados, e alguns modelos de Porsche lideram o ranking individual de mais recalls. Parte dos números considera atualizações over-the-air, que em muitos casos dispensam ida às concessionárias.

A Ford também tem tido anos atípicos: 2025 registrou 152 recalls para a marca, recorde naquele período, e 2026 caminha para superar novo marco, com cerca de 1,74 milhão de veículos convocados para correções relacionadas a duas falhas em câmeras de ré. O F-150, por sua vez, figura entre os modelos com índice de recall 4,42 vezes acima da média.

O cenário é complexo e exige leitura cuidadosa: consumidores valorizam confiabilidade, e índices de recall compõem apenas um dos sinais disponíveis. Manter baixa taxa de chamadas ao longo de anos é um diferencial industrial relevante, mas a interpretação deve considerar tipos de defeitos, atualizações remotas e a própria metodologia das pesquisas.